pedido

- você tem dois pedidos.

- ué? só dois? como assim? já vi gênio dar três pedidos e até apenas um quando tá puto, mas eu pego logo o que me dá dois pedidos? é a primeira vez que vejo alguma coisa assim.

- aumentar é que eu não vou, então ou você começa logo a fazer seus pedidos ou...

- tá bom, tá bom. entendi. dois pedidos. uhmmm. de certa forma é bom, número par, gosto de pares. dá uma sensação de unidade, de fechamento, de um ciclo bem concluído, sabe? 

- uhum.

- se fosse três eu teria sempre a sensação que ficou faltando algo. que poderia ter sido quatro, sabe? ou que eu pudesse ter parado no dois e ficado com a sensação romântica do impossível a ser realizado no futuro, sei lá. gosto dessa ideia romântica de coisas inacabadas e feitos grandiosos que foram interrompidos no meio do processo...

- você vai fazer os pedidos ou não, meu querido?

- vou, vou, vou. claro que vou. quer dizer, vou vou. igual aos meus pedidos. deixa eu ver... uhmmmm... é difícil, po. quando eu assistia essa cena no cinema achava que era mais fácil. pra começar, nem azul você é, é negão e baixinho, completamente diferente de tudo que pensei e, convenhamos, sair de uma garrafa de Pitú? poxa cara, na época do alladin tu tinha bem mais moral que isso, hein? mas tudo bem, a gente não pode reclamar de tudo e você já me deu dois pedidos, então eu tenho que me concentrar no que eu quero, pedir com sabedoria e sair daqui com plena certeza que tomei a decisão certa, né? imagina passar o resto da eternidade pensando como teria sido isso ou aquilo, esse ou aquele, seria uma tortura. deus me livre!

- cara, por favor, só escolhe duas coisas coisas que você queira muito e me fala. a novela das vinte e uma tá quase começando e eu não sou pago pra fazer hora extra.

- claro, claro. poxa, mas agora você me deixou com uma dúvida pior ainda: como assim duas coisas que eu mais quero na vida? nunca pensei sobre isso! cara, que tenso. como é que eu tomava minhas decisões até hoje sem ter exata certeza sobre tudo isso? meu deus, chego a ficar decepcionado comigo. o que é que eu mais quero? amor, dinheiro, família, felicidade? sexo, carros importados, jatinho com maçanetas banhadas a ouro, um cinema dentro do meu quarto? amigos verdadeiros, paz, viagens, aventuras, uma fórmula mágica que nunca me deixe de ressaca aos sábados de manhã ou uma que me tire a azia depois da feijuca de sexta? tantas coisas que eu quero, como decidir as duas que eu mais quero entre tantas coisas?

- esquece o que eu falei, só escolhe duas entre essas que você falou.

- impossível.

- amigo, não vou perder a griselda hoje a noite. ou tu escolhe logo ou vou decidir por você, beleza?

- você fala muitas gírias pra um gênio da lâmpada com milhares de anos.

- puta que pariu.

- e essa fixação com novelas, hein? desde quando tu tem tevê aí dentro?

- cara, to perdendo a paciência de verdade.

- tá bom, tá bom. não consigo mesmo escolher. acho melhor você decidir, então. olha bem pra mim e me dê o que você acha que eu preciso ou o que vou gostar. juro que não vou contestar. o que você decidir tá decidido, não importa o quê. é até melhor assim, eu sou desses que odeia restaurante com muita opção, fico perdido no deserto das escolhas. uma vez fui pra nova iórque e passei três horas pra escolher uma cheesecake, e olha que o restaurante vendia macarrão. melhor assim, vai, escolhe e pode ir ver sua novela.

- tem certeza? não poderás voltar atrás.

- tenho, tenho, claro que tenho. quer dizer, tenho tenho. manda bala.

- ótimo, então toma aqui um dado e uma placa escrito "sim".

sincronia

E quando a gente deitava na cama apertada e eu te abraçava por trás e encostava minha boca no teu pescoço, bem perto da tatuagem com meu nome, podia sentir seu corpo tremer bem de leve, me reconhecendo. E dois minutos depois, nossa respiração estava sincronizada, como num filme com legendas que acelera no começo e entra em sintonia logo depois. E nosso corpo era um só. Como quando eu acordava e a sua letra estava estampada no espelho do banheiro, dizendo que me amava. E como eu te amava.

teiro

o ponteiro

do relógio

nunca

consegue dar uma volta completa sem que eu pense em ti.

ligações

- É claro que eu tenho certeza. Quer dizer, acho que tenho. Pelo menos é o certo a se fazer. Disso eu tenho certeza. A gente começou isso tudo como crianças imaturas, se lembra daquela foto sua na beira da piscina? Hoje, somos adultos que cresceram apoiados na confiança, no amor e no orgulho um do outro e tudo que eu consigo pensar agora enquanto choro e molho a sua última carta é em como explicar pra mim mesmo, daqui a pouco, o porque disso tudo. E eu tenho que bater o pé e fingir que não ligo, que não te ligo. Mas a verdade é que meu celular está cheio de chamadas com seu nome, seu número e sua foto sorrindo em Nova York que nunca foram completadas.

- E eu finjo que não espero o celular tocar, né?

- É.

dois mil e doze

Ela entrou no café com aquele vestido de listras roxas e a bolsa vermelha na mão, sentou na única cadeira que não pendia pra esquerda de todo o local e esperou. Ele chegou correndo. Sabia que estava atrasado, sabia que ia levar uma bronca, mas pelo menos tinha corrido, suado, feito um esforço para não desapontá-la.

Pediram um espresso e dois bolos de bacia.

- O que eu mais desejo nesse novo ano é que os atrasos não aconteçam mais.

- O que você quer dizer com isso?

Ela sorriu.

Ele colocou duas colheres de açúcar na xícara branca e rasa enquanto ela girava o celular na mesa, escolhendo o momento certo de falar.

- Que o relógio não pare, nunca. E que ele nunca acelere também, porque as duas coisas nos fazem descompassar. Eu só queria que quando os sinos de qualquer igreja ao redor do mundo tocassem, tudo estivesse no lugar que devia estar. Não o que sonhamos estar, não o que queremos que esteja e muito menos no lugar que querem que estejamos, mas que o mundo continue girando e forçando acontecimentos sem previsão, metodologia ou aviso prévio, simplesmente nos jogando de um lado a outro do universo ao seu bel prazer e nos fazendo adaptar-nos aos mais diferentes tipos de situações e pessoas ao longo dos dias ora curtos e ora infindáveis atrás de um ideal utópico de felicidade que sequer sabemos se existe, mas que vale muito a pena imaginar e passar cada minuto procurado. 

Respirou fundo e, quase atropelando as palavras, continuou:

- É como as estrelas, sabe? Elas estão todas iluminadas lá no céu e é bem possível que todas elas já estejam mortas ha muitos milênios e sua luz só chegando aqui agora. E isso não tira o fato de que elas nos iluminam, toda noite, independente do destino que encontraram.

Ele sorriu.

Abriu a carteira, chamou o garçom e colocou três ou quatro notas embaixo do copo de água mineral com gás, cortesia da casa, levantando-se calmamente e puxando a cadeira dela num daqueles atos de cavalheirismo dos quais ele nunca se cansava de fazer.

- Mas você não acha que isso já não acontece todo ano?

- Acho. E o que eu mais quero é que continue assim.

coração

Tinha medo de ir ao cardiologista. Sabia que tudo dentro dele estava reduzido a pedaços.

...

- já assistiu o novo filme do almodovar?
- não gosto desses filmes que me fazem pensar.

- ...

 

nunca mais ela ouviu falar dele.

diferente

- e ai, bebeu muito nesse natal?
- não, só fiquei com minha família de boa.
- uhmmm, parece chato.

- nem um pouco.

só as vezes

- ah, mas essa tua vida tá boa demais, né não?
- uhum.
- uhum? só uhum?

...

- é legal e tal, mas eu queria as vezes só voltar cedo com uma garota que realmente significasse algo, colocar um filme e vê-la cair de sono no meu ombro.

natal é muito amor.

natal é aquela época em que a gente reune a família em volta de uma mesa farta e agradece por tudo que aconteceu durante o ano e relembra o porque de chegarmos a este dia vinte e cinco de dezembro com gratidão no coração. pra mim, natal também é hora de abraçar forte e perdoar. duas das coisas mais importantes que podemos fazer na vida. nada pode ser melhor do que passar seus braços em volta daquela pessoa que significa o mundo pra você. essa sensação, única, de segurar com seus dedos frágeis e seus braços cansados todas as coisas que te importam no universo de uma só vez pode ser libertadora e nenhuma mentira sobrevive a estes segundos tão preciosos. já perdoar é tão bom quanto difícil, na mesmíssima proporção. mas a recompensa por esse ato tão superestimado que todos tentam, mas poucos realmente entendem o significado é duradoura. abraço e perdão, pra mim, é amor. e amor pode ser traduzido em natal. luzes coloridas, mesa com um bonito arranjo vermelho, cordões dourados na porta e um monte de presentes, só pra dizer pras pessoas que você as ama. 

eu amei uma pessoa tão forte, com tanta esperança durante este ano que tenho muito o que agradecer quando estiver com os olhos fechados hoje a noite. o que eu ganhei em todo esse processo foi melhor que qualquer presente que ela, você ou papai noel pudessem me dar. eu abracei e segurei o corpo dela quando estava prestes a cair, e assim salvava meu mundo dia após dia, guardando cada lágrima que rolava pelo rosto como uma prova do quanto era real. e, por isso, metade do meu natal deste ano já deveria estar tão completo e feliz quanto nos ultimos anos. depois, eu sofri de uma doença que não tem cura e não era capaz de perdoar essa maldição porque não a entendia. e todo o mundo parecia um lugar mais escuro, desses que a gente sorri pra todo mundo na mesa do bar, mas por dentro está segurando e estrangulando cada pedacinho de dor com fúria pra não ser fraco. e entre momentos de fraqueza e força, sobrevivemos.

natal não pode ser incompleto, não pra mim. e, por isso. eu te perdoo. e queria te abraçar hoje a noite com luzes coloridas piscando no fundo da sala de estar. e só por esse sentimento e esse desejo, posso dizer que é uma noite muito feliz.

natal é muito amor.